Movimento em prol das abelhas nativas

postado em: Gourmet, Jornalismo | 0

Uma série de colmeias estão sendo instaladas na cidade de São Paulo. O hotel Palácio Tangará já tem a sua, assim como os restaurantes Tuju, Paris 6 e Aisomê. O Instituto Chão e a gelateria Frida & Mina, em Pinheiros. Desde o início do ano, são mais de 45 casas e chefs de cozinha que podem se gabar de ter uma colméia de abelhas sem ferrão para chamar de sua em meio ao cinza paulistano.

Com 15×15 cm, as caixinhas de madeira têm capacidade para abrigar de 3 mil a 5 mil abelhas da espécie jataí, com capacidade para produzir, no máximo, 300 g de mel por ano. Um nada perto das da espécie apis (as listradinhas e com ferrão dolorido que mais conhecemos), que fabricam até 20 kg de mel no mesmo período. Daí também sua popularidade.

O objetivo, entretanto, não é a extração do néctar, mas chamar atenção para a importância das abelhas para a sobrevivência dos seres humanos, já que são as principais polinizadoras da natureza, e a necessidade de preservação das espécies nativas. “Queremos levar a cultura das abelhas para quem mora na cidade e mostrar que elas são do bem, não é preciso ter medo”, explica Márcia Basile, da marca de méles MBee, responsável pela iniciativa.

A causa é nobre e de extrema importância para o ecossistema do planeta. A morte e o desaparecimento das abelhas vêm sendo registrado em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, onde recentemente, associações de apicultores e órgãos ligados à Secretarias Estaduais de Agricultura do Rio Grande do Sul e Santa Catarina contabilizaram a morte de mais de 500 milhões de abelhas, devido a ação de agrotóxicos. Com isso, cai, naturalmente, a taxa de polinização e consequentemente a manutenção e promoção da biodiversidade na Terra.

Em pé, Eugênio e Márcia Basile, da marca de méles MBee, responsáveis pelo movimento. Sentado, o chef Felipe Rodrigues, do hotel Palácio Tangará.

Anexo ao Parque Burle Marx, na Zona Sul de São Paulo, o Palácio Tangará tem pretensões de se tornar embaixador do projeto. “Já identificamos algumas colmeias de abelhas jataí formadas naturalmente em troncos ocos de árvores que serão preservados, estamos revendo o paisagismo para ter mais alimentos que elas gostam plantados por perto – como erva-doce, orquídea, sálvia e manjericão – e, em breve, devemos receber uma segunda caixa, agora com abelhas mandaçaia”, afirma o diretor executivo adjunto do hotel, Wadim Alvarez.

Para agosto, o chef Felipe Rodrigues, responsável pelo dia a dia do restaurante Tangará Jean-Georges, está preparando o lançamento de uma sobremesa com mel de jataí (que virá de outras colmeias maiores, fora da cidade) cuja renda será revertida para uma ONG ligada à causa.

“Estamos ainda montando uma série de ações e atividades pedagógicas para conscientizar especialmente as crianças sobre a importância desses insetos para o meio ambiente”, completa o executivo, que já conta com potinhos de meles nativos entre as amenidades oferecidas para os hóspedes nos quartos.

Do outro lado do rio Pinheiros, o hotel Four Seasons também se prepara para receber sua colmeia, assim como o hotel Hilton, no Rio de Janeiro, e o Grande Hotel, em Campos do Jordão. Mas antes será preciso criar um ambiente propício. “A jataí não voa para muito longe para buscar alimento, no máximo 100 a 150 m da caixa. Então é preciso ter horta e árvores por perto”, conta Márcia. Uma vez formado o ecossistema ideal, as próprias abelhas se encarregarão de expandir seus domínios.

Experiência semelhante foi feita há alguns anos em Paris, onde o topo de alguns edifícios – entre eles o da sede da Louis Vuitton – serviu de base para dezenas de caixas de abelhas que, no fim de 2 anos de experiência, geraram mais de 75 kg de mel com o terroir da Cidade Luz. Produto que, em alguns casos, foram doados a clientes e amigos das marcas envolvidas.

Determinadas a ajudar o meio ambiente, algumas pessoas também têm se dedicado a cultivar suas próprias colmeias urbanas com a ajuda de ONGs como a S.O.S Abelha sem Ferrão, que promove cursos sobre o assunto.

 

Esta matéria foi produzida por mim e originalmente publicada no site UOL em agosto de 2019.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *